Regina Diaslivro artesanal em três cadernos — 19, 20 e 21 Rabiscos
Aos filhos, noras, netos e neta. E quem mais vier. À toda minha família, com amor dedicado.
Aos meus amigos, leitores das minhas aventuras por caminhos tortos — das letras e do desenho.
nanquim sobre papel vegetal e jornal, rabiscos em pastel seco
1
Lua
Pulei da cama atrapalhadas as horas. Dei com o banheiro claro. Bebemos tanto vinho, caí exausta nesse dia longo. Tão frio para o banho e, sem pressa, voltei me embrulhando. As horas mentiram? Não. A lua foi quem embaralhou a luz. Aquele diamante branco.
2
Pés
Meus pés andam duros, rijos. Olho-os com complacência — têm sessenta e voam. Vão comigo perambulando, correndo atrás da prata opaca e mansa. Invento mãos que os deixem moles — um animal anestesiado com dardo. Corri, debati, nadei, dancei. Sob sua torre me finco.
3
trilhos
quando eu puder abrir a porta para o jardim, deixando entrar a lufada de ar presa lá fora quem sabe você possa vir para este lado do vazio encher o peito de música vou ajudar os trilhos a correrem como braços em extensão e sua mão em mim
4
Praia
noite de passear na praia andar em silêncio pensar menos reter o dia fracos faróis contornando a serra cachoeiras brilhos sem nome
viu?
5
Deixa estar
Janelas abertas escandalosas de sol. Tenho poucas cortinas, são só varais, costumo dizer. Se me cubro impertinente, por que haveria a janela de ter roupa? Deixa que vivam escancaradas — que se fechem nos temporais. É neles que trojevo, exalando enxofre. Quando repilo ou quando me partem. Cindida.
6
Amarra
inauguramos dias de paz outros em tormenta acorda amarga a boca de viés um nó feito de ráfia duro como amarra de barco palavra me paralisa com todos rezando a volta novena alguma retrocede o movimento da bile ondas a virar o seu coração mole
Peito forçado Jeito de cowboy Um pão salgado, leite grosso Café forte Gole de onça Faca na cintura
7
entre dentes
manga carnuda pitanga roxa era pra você saborear como um morango naco de pele que se abocanha com a dignidade que cabe aos primitivos molhou a roupa, encharcou os pés escorreu chuva pelas pernas entre os dedos calçados não sei se mordi o corpo carnudo da fruta ou, quem sabe? você!
8
Tessitura
Os anos loucos, anos dourados — apalpo os dedos em kalimba. Mel e laranja num beijo. Arregaço o punho da malha, regresso o passo. Hastes nas mãos encontram as dezessete chaves da flauta que soa corpo. Respingou a chuva transversal da cachoeira — a última barroca.
9
Loucos
Estamos todos loucos E somos bons
10
1870
acordo com dores por todo o corpo tento me massagear apertando a realidade não sou eu quem sai da casa — é a casa saindo de mim
11
Eu broto da pedra
Nasço do meu umbigo embrião do ar que ventila os vãos. Vou me tomar inteira e intensamente Flor. Voarei até o Marrocos levando palavras novas. Da pedra para o sal do Deserto. Musgo. Corola. Androceu. Gineceu. Eu mesma. Um claro amanhã para o pó.
12
Conexões
conexões neurais querem descanso das texturas gramaturas do papel distorção de Photoshop
13
Cílios
Em zoom o rosto foi aumentando microscópio nos cílios fechados os poros se casaram, lábios chegaram ao infinito. Depois, beijo de namoro multiplicado em paixão doida. Força da Terra num só sacramento.
14
amor primeiro
meu antigo amor meu ex-querido (a flor) meu anti-amado meu longeperto segregado meu-abolido abominado parti inteiro meu coração por ti faminto e errado
15
Camisa
camisas brancas alçariam voo pelo andar todo flanando pelas janelas embaçadas todas feitas de caquinhos de Volpi
16
Sombras
sombra espichada pela lua paralela cabeça de extraterrestre sei brincar na solidão como quando criança sombra na parede burro pato leão passarinho
17
O quebra-nozes
barco pequeno a casquinha da fruta seca na mesa sobre a toalha nozes-barcos nós — náufragos na tormenta entre flores de linho sal uvas e o sábado
18
Notívago
sol desejado invasor notívago aponte o dia
19
Pretérito
andorinhas de porcelana coagulam o azul de Faiança é minha avó miúda cerzindo seu novelo em linha costurando pela tarde uniformes marinho de saia pregueada e botões
20
Caixotes
caixotes me espiam temo os ratos só preciso molhar o rosto no chuveiro para me mover na casinha que cheira a tinta nova
21
Palmas das mãos
encontro as palmas das mãos para aparar a água jorrando da bica levo o rosto excesso escorre como um rio e me habita vindo do nada um beijo assombra direto na nuca
22
sementes
as sementes recomeçam a floresta repetem-se refotografando em memória as cores da baunilha
23
meio-dia
era um meio-dia de um dia inteiro naquele quarto de hora
24
Bandido do sonho
dorme o bandido do sonho dormem os olhos ameaçadores de minha mãe dormem sem exalar morte descumpro os planos do destino desvio o olhar de loucos que por mim transitam — irão me obrigar a escrever poemas centenas
25
Temperança
Apago as poucas luzes, foco no céu acima de mim. Ando mais à direita, mais à esquerda. Quero uma referência para entender que é somente a lua. Penso na Insensatez. Na lua cheia há crises de loucura. Só consigo admirar esse vestido de luz que cobre a Temperança.
26
Barcos
terei o abandono das velas tombadas a ir e vir em alísios um cais jamais será o mesmo sequer eu — sem nunca ter tido Lídia
27
Cítrico
Desfrute o gomo. Tenho cheiro de cacau nas roupas. Volte o relógio, favor voltar o verão. Distraia-o enquanto entro com os braçospelo pé de jaboticaba e cato um punhado. Espoco esses frutos densos e derramo limão-cravo, chocolates. Nesta casa sonâmbula sirvo ao dono minhas mãos inteiras de delícia.
28
Homem de pé
Homem de pé frente a mim parece alguém em quem deixei Vesti. Por ele vi, através e tanto, que perdi. Fragmentou-se em luz, e eu menti.
29
Relógio
lutou na cama com o relógio surreal que batia ao avesso
30
Pupila
tanto sol que a pupila roda e gira dá um sono arretado moleza o corpo quer cama ancha braços e pernas à cata de vento
suarenta, a pele prega que só limão no bucho traz de volta o prumo
31
Cavo
Cavo e não acho acordo temendo que a terra desmaie. Adeus, casinha brilhante O silêncio nos unia.
32
desmaio
a cor rósea do rosto embranqueceu pálido boca a boca pulso 3, 2, zero nada mais desapareceu num átimo quem morreu? qual de nós?
33
Davi
do tombadilho do sonho Davi vivo perfeito em pedra duradouro secular seu dorso brilhante iluminado feito em pedra Pedro
34
Pássaro Onomatopaico
baixo riacho baixio navego seco no estreito à margem giro a botina areia grossa grassa o ar assisto o pio insistente do sanhaço corre azul riscando o caminho um trinado assissimmm feérico feito peia na canela do burrico cansado
35
Pentimento
Tem algo que o mesmo livro me contou quando eu era outra. Outro o narrador veio em pentimento. Listei para encontrar um caminho de fragmentação. Já não compreendo meus garranchos. Algo de sua sedução me mantém escrava.
Construtora de puzzles.
36
Esfinges
todo o poder restringe e tarde — ainda — finge por nós, tristes esfinges
37
Rock é andrógino
Norte passa à beira da cabeceira Norte que me tange Norte que me embrulha esse estômago Rock andrógino, não me deixe por essas noites vazias O tempo indo rumo às velas do Pacífico Rock branco tormentas do rock negro Black star Blue train
38
Flor
Circule a casa que a alma areja Botão de flor
39
Buriti
sou sertão de pau, sou cacho de buriti e só sirvo da água de pote pinga o doce espalho a mão bato a boca e vou ventando
moço, nunca que quieto
40
Eixo
Pare para que eu dance. Dance em mim ao longo dessa nossa história. Praxe. Vou na frente, me siga. Cuide do ritmo, avance. Sei voar. Não acredita! Sei amar, olhos cruzados. Esse braço que aponta me freia. Em movimento dos barcos. Estou ao vento, giro. Embarco pelo seu corpo venerável. Em volta é retorno. Paralaxe. Você, arrimo. Pilastra oca dique colmo cardeal. Voo e não há chão. No recôndito equatorial, Enlace meu moinho. Piso torço enrosco laço.
Potro urso cobra cão.
41
Frente
Frente ao céu vespertino retenho o ar
Expiro
42
Chorões
bebês chorões entupidos noites de embalar cuidando para que não caíssem do meu braço eu sentada ouvindo o nada da madrugada o respirar pulsado deles cansaço
43
Envelheço
Há esse tempo exíguo que tortura o espelho.
Envelheço.
44
Dez dedinhos
Dez dedinhos amassam o doce Delicado Menino
45
tartaruga
você sai de onde nasceu, e é bom volta
sua cidade, vilipendiada, ainda é sua volta como a tartaruga volta
46
Estátua
suas costas largas como um território e sua mão na minha cintura desenha o riacho brincamos de estátua
47
Gávea
no caminho da Gávea o taxi pára na esquina meu coração está calcinado paisagem é impecável em seu espetáculo simétrico e lento o sol cochila
48
Fibra do Vidro
segure a mão macia inspire o tecido fibra do vidro
49
Lenha
Me acomodaram feito eixo traçado para fazer o sopro amarelo. Queimo acelerando o vapor. Queimo como a árvore que fui me dei inteira como sombra essa que perpassa a treliça.
Copa Galho Caco. Esse fim de cerrado.
50
A casa
a casa só precisa do fogo de assar o fogo de aquecer o fogo da paixão.
51
vvv
Vertiginoso voltar. Ver o espaço na memória onde não habitamos mais. Impossível rever e rever, de mãos dadas com o mesmo bebê o homem que veio a ser.
52
Clavas
Vi quando subiram as clavas dos malabares. Palhaço moribundo. Subiam as clavas pensava no sonho da noite. A Escola, tão perto dali.
Sobem as clavas nas mãos do pedinte Arcos de rua da Universidade. Jogo de dados. Mallarmé.
53
Palmeira
folhas mais verdes do que tudo espichadas para o céu tentando recuperar o tempo que andou nessa amarração-de-amor
54
Conjugados
serão conjugados os verbos proibidos serão tratados os cães famintos serão por fim, amados os cinzas da cidade.
crianças-cheiro-de-cola-fundem-se-no-negro
55
Réstia de alho
Réstia de alho soterrada com a Igreja. Morreram seus peixes, compadre. Cavalo atolou, as penas não mexem. Chocalhos, bananeiras, redes, panelas e o fogão à lenha. Junto com o sino, tudo rolou lama abaixo. Sem tardes de soleira. Nem agulha no bordado.
56
O
espaço no papel é também desenho é assim mesmo a Poesia
57
Tomba
Logo será amanhã logo seremos sombra tomba exausto Corpo
58
vagando
o escritor atônito vaga geleira nos braços vereda dura do asfalto linha branca contínua o leva sem dó chegará incolor à porta tramada, posta em ferros Igreja de pedra as batidas chamando como ferraduras no calhau
59
Faca
encontrado morto só ossos e as tralhas que levei tempo para criar essa cuia de barro aquecida espeto de mato folhas secas no teto que abrigam tolas memórias (só elas ficarão) e a faca
60
Vidriera
Fosse eu, andaria por aí sombra inexata companhia dos espelhos e vitrais da Aljama esse século que persigo no ontem enquanto nos desarrancavam das pedras claras. Fosse você, andaria pelo passado que cerraram expulsando as sementes que vestimos e costuramos pelos vãos.
Nas páginas do livro
Abre com um preâmbulo de George Perec, A vida modo de usar; fecha com A arte da natação, de Ricardo Piglia, Formas Breves.
Colofão
Este livro, em sua versão artesanal, foi escrito e desenhado à mão por Regina Dias, sobre camadas de papel vegetal e papel jornal 48 g/m² interfolha, rabiscos em pastel seco. Capa A3 Filiperson 240 g/m² dobrado.
Carimbos, desenhos e traços compõem a linguagem visual da obra. São 3 cadernos em doze unidades cada.
19, 20, 21 rabiscos e um poema legível — numerados e assinados pela autora e que integra a série “…Rabiscos e um Poema Legível”.
Regina Dias é montadora de cinema e autora de livros que cruzam palavra e imagem. Membro da ABC e fundadora da Cia de Cinema (1984), tem dedicado sua prática à criação de livros artesanais, poesia e estruturas dobradas. Vive em São Paulo.
Autora de Montagem não é Pescaria, Um Livro para Vocês, Paulistana e Boca Lunar.