60 RABISCOS

e um poema legível

Regina Diaslivro artesanal em três cadernos — 19, 20 e 21 Rabiscos

Aos filhos, noras, netos e neta. E quem mais vier.
À toda minha família, com amor dedicado.

Aos meus amigos, leitores das minhas aventuras
por caminhos tortos — das letras e do desenho.

Manuscrito em nanquim: O — espaço no papel é também desenho, é assim mesmo a Poesia
nanquim sobre papel vegetal e jornal, rabiscos em pastel seco
1

Lua

Pulei da cama atrapalhadas
as horas. Dei com o banheiro claro.
Bebemos tanto vinho, caí exausta
nesse dia longo. Tão frio para o banho e,
sem pressa, voltei me embrulhando.
As horas mentiram?
Não.
A lua foi quem embaralhou a luz.
Aquele diamante branco.

2

Pés

Meus pés andam
duros, rijos.
Olho-os
com complacência —
têm sessenta e voam.
Vão comigo
perambulando,
correndo atrás
da prata
opaca e mansa.
Invento mãos que
os deixem moles — um
animal anestesiado
com dardo.
Corri, debati, nadei, dancei.
Sob sua torre me finco.

Manuscrito de Pés, nanquim sobre papel vegetal
3

trilhos

quando eu puder abrir a porta
para o jardim, deixando entrar
a lufada de ar presa lá fora
quem sabe você possa vir
para este lado do vazio
encher o peito de música
vou ajudar os trilhos
a correrem como braços
em extensão e
sua mão em mim

4

Praia

noite de passear
na praia
andar em silêncio
pensar menos
reter o dia
fracos faróis
contornando
a serra
cachoeiras
brilhos sem nome

viu?

5

Deixa estar

Janelas abertas escandalosas de sol.
Tenho poucas cortinas, são só varais,
costumo dizer. Se me cubro impertinente,
por que haveria a janela de ter roupa?
Deixa que vivam escancaradas —
que se fechem nos temporais. É neles
que trojevo, exalando enxofre.
Quando repilo ou quando me partem.
Cindida.

6

Amarra

inauguramos dias de paz
outros em tormenta
acorda amarga
a boca de viés
um nó feito de ráfia
duro como amarra de barco
palavra me paralisa
com todos rezando a volta
novena alguma
retrocede o movimento da bile
ondas a virar
o seu coração mole

Peito forçado
Jeito de cowboy
Um pão salgado,
leite grosso
Café forte
Gole de onça
Faca na cintura

7

entre dentes

manga carnuda
pitanga roxa
era pra você saborear como um morango
naco de pele que se abocanha
com a dignidade
que cabe aos primitivos
molhou a roupa, encharcou os pés
escorreu chuva pelas pernas
entre os dedos calçados
não sei se mordi o corpo carnudo
da fruta ou, quem sabe?
você!

Manuscrito de entre dentes, nanquim sobre papel vegetal
8

Tessitura

Os anos loucos,
anos dourados — apalpo
os dedos em kalimba.
Mel e laranja
num beijo.
Arregaço o punho da malha,
regresso o passo.
Hastes nas mãos
encontram as dezessete
chaves da flauta
que soa corpo.
Respingou
a chuva transversal
da cachoeira —
a última barroca.

Manuscrito de Tessitura, nanquim sobre papel vegetal
9

Loucos

Estamos todos
loucos
E somos bons

10

1870

acordo com dores
por todo o corpo
tento me massagear
apertando a realidade
não sou eu quem
sai da casa —
é a casa saindo de mim

11

Eu broto da pedra

Nasço do meu umbigo
embrião do ar que ventila os vãos.
Vou me tomar inteira e
intensamente Flor.
Voarei até o Marrocos
levando palavras novas.
Da pedra para o sal
do Deserto.
Musgo. Corola.
Androceu. Gineceu.
Eu mesma.
Um claro amanhã
para o pó.

Manuscrito de Eu broto da pedra, nanquim sobre papel vegetal
12

Conexões

conexões neurais
querem descanso
das texturas
gramaturas do papel
distorção de
Photoshop

13

Cílios

Em zoom o rosto foi
aumentando
microscópio nos cílios
fechados
os poros se casaram,
lábios
chegaram ao infinito.
Depois, beijo de namoro
multiplicado em
paixão doida.
Força da Terra
num só sacramento.

14

amor primeiro

meu antigo amor
meu ex-querido (a flor)
meu anti-amado
meu longeperto
segregado
meu-abolido
abominado
parti
inteiro
meu coração
por ti
faminto e errado

Manuscrito de amor primeiro, nanquim sobre papel vegetal
15

Camisa

camisas brancas
alçariam voo
pelo andar todo
flanando pelas
janelas embaçadas
todas feitas de
caquinhos de
Volpi

16

Sombras

sombra espichada
pela lua paralela
cabeça de extraterrestre
sei brincar na solidão
como quando criança
sombra na parede
burro pato
leão passarinho

17

O quebra-nozes

barco pequeno
a casquinha da fruta seca
na mesa sobre a toalha
nozes-barcos
nós — náufragos
na tormenta entre
flores de linho
sal
uvas e
o sábado

Manuscrito de O quebra-nozes, nanquim sobre papel vegetal
18

Notívago

sol desejado
invasor notívago
aponte o dia

Manuscrito de Notívago, nanquim sobre papel vegetal
19

Pretérito

andorinhas de porcelana
coagulam o azul
de Faiança
é minha avó miúda
cerzindo seu novelo
em linha
costurando pela tarde
uniformes marinho
de saia pregueada
e botões

20

Caixotes

caixotes me espiam
temo os ratos
só preciso molhar
o rosto no chuveiro
para me mover
na casinha que
cheira a tinta nova

21

Palmas das mãos

encontro as palmas
das mãos para
aparar a água jorrando
da bica
levo o rosto
excesso escorre
como um rio e me habita
vindo do nada
um beijo assombra
direto na nuca

22

sementes

as sementes
recomeçam
a floresta
repetem-se
refotografando
em memória
as cores da baunilha

23

meio-dia

era um meio-dia
de um dia inteiro
naquele quarto
de hora

Manuscrito de meio-dia, nanquim sobre papel vegetal
24

Bandido do sonho

dorme o bandido do sonho
dormem os olhos ameaçadores
de minha mãe
dormem sem exalar morte
descumpro os planos do destino
desvio o olhar de loucos
que por mim transitam —
irão me obrigar
a escrever poemas
centenas

25

Temperança

Apago as poucas luzes,
foco no céu
acima de mim.
Ando mais à direita,
mais à esquerda.
Quero uma referência
para entender
que é somente a lua.
Penso na Insensatez.
Na lua cheia
há crises de loucura.
Só consigo admirar
esse vestido de luz
que cobre a
Temperança.

26

Barcos

terei o abandono
das velas tombadas
a ir e vir em
alísios
um cais jamais
será o mesmo
sequer eu — sem nunca
ter tido Lídia

27

Cítrico

Desfrute o gomo. Tenho cheiro
de cacau nas roupas. Volte o relógio, favor
voltar o verão. Distraia-o enquanto entro
com os braçospelo pé de jaboticaba e cato
um punhado. Espoco esses frutos densos
e derramo limão-cravo, chocolates.
Nesta casa sonâmbula
sirvo ao dono minhas mãos
inteiras de delícia.

28

Homem de pé

Homem de pé frente
a mim parece alguém
em quem deixei
Vesti. Por ele vi,
através e tanto,
que perdi.
Fragmentou-se
em luz,
e eu menti.

Manuscrito de Homem de pé, nanquim sobre papel vegetal
29

Relógio

lutou na cama
com o relógio
surreal
que batia
ao avesso

30

Pupila

tanto sol que a pupila
roda e gira
dá um sono arretado
moleza
o corpo quer
cama ancha
braços e pernas
à cata de vento

suarenta,
a pele prega
que só limão
no bucho
traz de volta o prumo

31

Cavo

Cavo e não acho
acordo
temendo que
a terra desmaie.
Adeus, casinha
brilhante
O silêncio nos unia.

Manuscrito de Cavo, nanquim sobre papel vegetal
32

desmaio

a cor rósea do rosto
embranqueceu pálido
boca a boca
pulso 3, 2, zero
nada mais
desapareceu num átimo
quem morreu?
qual de nós?

Manuscrito de desmaio, nanquim sobre papel vegetal
33

Davi

do tombadilho
do sonho
Davi vivo
perfeito em pedra
duradouro secular
seu dorso brilhante
iluminado
feito em pedra
Pedro

34

Pássaro Onomatopaico

baixo riacho
baixio
navego seco no estreito
à margem
giro a botina
areia grossa
grassa o ar
assisto o pio insistente
do sanhaço
corre azul
riscando o caminho
um trinado
assissimmm
feérico
feito peia
na canela
do burrico
cansado

35

Pentimento

Tem algo
que o mesmo
livro me contou
quando eu era outra.
Outro o narrador
veio em pentimento.
Listei para encontrar
um caminho
de fragmentação.
Já não compreendo
meus garranchos.
Algo de sua sedução
me mantém escrava.

Construtora de puzzles.

Manuscrito de Pentimento, nanquim sobre papel vegetal
36

Esfinges

todo o poder
restringe e
tarde — ainda — finge
por nós,
tristes esfinges

Manuscrito de Esfinges, nanquim sobre papel vegetal
37

Rock é andrógino

Norte passa à beira da cabeceira
Norte que me tange
Norte que me embrulha
esse estômago
Rock andrógino, não me deixe
por essas noites vazias
O tempo indo rumo
às velas do Pacífico
Rock branco
tormentas do rock negro
Black star
Blue train

Manuscrito de Rock é andrógino, nanquim sobre papel vegetal
38

Flor

Circule a casa
que a alma areja
Botão de flor

Manuscrito de Flor, nanquim sobre papel vegetal
39

Buriti

sou sertão de pau,
sou cacho de buriti
e só sirvo da água
de pote
pinga o doce
espalho a mão
bato a boca e
vou ventando

moço,
nunca que quieto

40

Eixo

Pare para que eu dance.
Dance em mim ao longo
dessa nossa história.
Praxe.
Vou na frente, me siga.
Cuide do ritmo, avance.
Sei voar. Não acredita!
Sei amar, olhos
cruzados.
Esse braço que aponta
me freia. Em
movimento dos barcos.
Estou ao vento, giro.
Embarco pelo seu corpo
venerável. Em volta
é retorno.
Paralaxe.
Você, arrimo. Pilastra
oca
dique colmo cardeal.
Voo e não há chão.
No recôndito equatorial,
Enlace meu moinho.
Piso
torço
enrosco
laço.

Potro urso
cobra cão.

41

Frente

Frente ao céu
vespertino
retenho o ar

Expiro

Manuscrito de Frente, nanquim sobre papel vegetal
42

Chorões

bebês
chorões
entupidos
noites de embalar
cuidando para que
não caíssem do
meu braço
eu
sentada
ouvindo o
nada da madrugada
o respirar pulsado
deles
cansaço

43

Envelheço

Há esse
tempo exíguo
que tortura
o espelho.

Envelheço.

44

Dez dedinhos

Dez dedinhos
amassam o doce
Delicado
Menino

Manuscrito de Dez dedinhos, nanquim sobre papel vegetal
45

tartaruga

você sai
de onde nasceu,
e é bom
volta

sua cidade,
vilipendiada,
ainda é sua
volta como a
tartaruga
volta

Manuscrito de tartaruga, nanquim sobre papel vegetal
46

Estátua

suas costas largas
como um território
e sua mão
na minha cintura
desenha o riacho
brincamos de estátua

47

Gávea

no caminho da Gávea
o taxi pára na esquina
meu coração está
calcinado
paisagem é impecável
em seu espetáculo
simétrico e lento
o sol cochila

48

Fibra do Vidro

segure a mão macia
inspire o tecido
fibra do vidro

Manuscrito de Fibra do Vidro, nanquim sobre papel vegetal
49

Lenha

Me acomodaram
feito eixo traçado
para fazer o sopro amarelo.
Queimo acelerando o vapor.
Queimo como a árvore que fui
me dei inteira como sombra
essa que perpassa a treliça.

Copa Galho Caco.
Esse fim de cerrado.

50

A casa

a casa só precisa
do fogo de assar o
fogo de aquecer o
fogo da paixão.

51

vvv

Vertiginoso voltar.
Ver o espaço na memória
onde não habitamos mais.
Impossível rever e rever,
de mãos dadas com
o mesmo bebê
o homem que veio a ser.

Manuscrito de vvv, nanquim sobre papel vegetal
52

Clavas

Vi
quando subiram as
clavas dos malabares.
Palhaço moribundo.
Subiam as clavas
pensava no sonho
da noite. A Escola,
tão perto dali.

Sobem as clavas
nas mãos do pedinte
Arcos de rua da
Universidade.
Jogo de dados.
Mallarmé.

Manuscrito de Clavas, nanquim sobre papel vegetal
53

Palmeira

folhas mais verdes
do que tudo
espichadas para o céu
tentando recuperar
o tempo que andou
nessa
amarração-de-amor

54

Conjugados

serão conjugados os verbos proibidos
serão tratados os cães famintos
serão por fim, amados
os cinzas da cidade.

crianças-cheiro-de-cola-fundem-se-no-negro

55

Réstia de alho

Réstia de alho soterrada
com a Igreja. Morreram
seus peixes, compadre.
Cavalo atolou, as penas não
mexem. Chocalhos, bananeiras,
redes, panelas e o fogão à lenha.
Junto com o sino,
tudo rolou lama abaixo.
Sem tardes de soleira.
Nem agulha no bordado.

Manuscrito de Réstia de alho, nanquim sobre papel vegetal
56

O

espaço no papel
é também desenho
é assim mesmo a
Poesia

Manuscrito de O, nanquim sobre papel vegetal
57

Tomba

Logo será amanhã
logo seremos sombra
tomba exausto
Corpo

Manuscrito de Tomba, nanquim sobre papel vegetal
58

vagando

o escritor atônito vaga
geleira nos braços
vereda dura do asfalto
linha branca contínua
o leva sem dó
chegará incolor à porta
tramada, posta em ferros
Igreja de pedra
as batidas chamando
como ferraduras no
calhau

59

Faca

encontrado morto
só ossos e as tralhas
que levei tempo
para criar
essa cuia de barro
aquecida
espeto de mato
folhas secas no teto
que abrigam tolas
memórias
(só elas ficarão)
e a faca

60

Vidriera

Fosse eu, andaria por aí
sombra inexata
companhia dos
espelhos e vitrais da
Aljama
esse século
que persigo no ontem
enquanto nos
desarrancavam
das pedras claras.
Fosse você,
andaria pelo
passado que cerraram
expulsando
as sementes
que vestimos e
costuramos pelos vãos.

Nas páginas do livro

Abre com um preâmbulo de George Perec, A vida modo de usar; fecha com A arte da natação, de Ricardo Piglia, Formas Breves.

Colofão

Este livro, em sua versão artesanal, foi escrito e desenhado à mão por Regina Dias, sobre camadas de papel vegetal e papel jornal 48 g/m² interfolha, rabiscos em pastel seco. Capa A3 Filiperson 240 g/m² dobrado.

Carimbos, desenhos e traços compõem a linguagem visual da obra. São 3 cadernos em doze unidades cada.

19, 20, 21 rabiscos e um poema legível — numerados e assinados pela autora e que integra a série “…Rabiscos e um Poema Legível”.

Regina Dias, 2025

Em circulação

Sobre a autora

Regina Dias é montadora de cinema e autora de livros que cruzam palavra e imagem. Membro da ABC e fundadora da Cia de Cinema (1984), tem dedicado sua prática à criação de livros artesanais, poesia e estruturas dobradas. Vive em São Paulo.

Autora de Montagem não é Pescaria, Um Livro para Vocês, Paulistana e Boca Lunar.

Texto e desenhos: Regina Dias · © 2025 Regina Maria Dias da Silva

Os três cadernos

Os três cadernos: 21, 19 e 20 Rabiscos
Os três cadernos: 21, 19 e 20 Rabiscos
Páginas de vegetal e o rabisco em pastel
Páginas de vegetal e o rabisco em pastel
Página manuscrita sobre o caderno aberto
Página manuscrita sobre o caderno aberto